Ásia e a Oceânia vão representar 56% das compras mundiais de frutas e legumes em 2030;

Ásia e a Oceânia vão representar 56% das compras mundiais de frutas e legumes em 2030
Gonçalo Andrade, presidente da associação Portugal Fresh.
Contrariamente ao período entre 2010 e 2017, em que as exportações portuguesas de frutas e legumes cresceram, em média, acima de 10% ao ano em valor, passando de 780 milhões de euros para 1472 milhões, nos primeiros meses de 2018 “não houve crescimento das exportações, em valor, face ao período homólogo”. Há, pelo contrário, “uma quebra de 1%”, constata o presidente da Portugal Fresh. Em 2018, até julho, o valor das exportações atingiu 939 milhões de euros, contra 948 milhões de euros em 2017, assume Gonçalo Andrade, em entrevista à “Vida Económica” antes da feira Fruit Attraction, que tem lugar em Madrid de 23 a 25 de outubro.
Há, porém, esperança no futuro do consumo e das transações internacionais neste setor. O presidente da Portugal Fresh revela os dados de um estudo divulgado após a feira Fruit Logistica de Berlim, em fevereiro, que compara dados reais de compras mundiais de frutas e legumes em 2015 e faz uma estimativa de compras para 2030. E os números são animadores: as compras de frutas e legumes no mundo vão passar de 2,1 biliões de euros, em 2015, para 4,8 biliões de euros em 2030. E, em 2030, a Ásia e a Oceânia vão representar 56% das compras mundiais deste setor. 
Vida Económica - A 30 de agosto, na feira AgroSemana, no Espaço Agros, na Póvoa de Varzim, o ministro da Agricultura citou o setor das frutas e legumes como um exemplo positivo de um setor que se internacionalizou e que fez das exportações a forma de crescer e criar valor. Que números é que pode apresentar em termos de volume de negócios e volume de exportações?
Gonçalo Andrade - Entre janeiro e julho de 2018 não houve crescimento das exportações em valor face ao período homólogo. Há uma quebra de 1%. Em 2018 o valor das exportações atingiu 939 milhões de euros, contra 948 milhões de euros em 2017. Recordo que os números entre 2010 e 2017 são bastante positivos. As exportações cresceram em média acima de 10% ao ano, em valor, passando de 780 milhões de euros para 1472 milhões. Este ano, todas as campanhas começaram muito tarde, o que prejudicou fortemente o valor médio de venda em grande parte dos produtos, mesmo nos que não sofreram quebra no volume global.
 
VE - Têm sido abertos novos mercados de exportação para as frutas. As empresas estão a aproveitar? 
GA - Qualquer mercado que é aberto é importante. Ao abrirmos novos mercados, é mais uma janela de oportunidade de venda e de escoamento que pode ser importante para diminuir a pressão nos outros mercados e melhorar a remuneração à produção. O processo entre a abertura de um novo mercado e a comercialização do produto, ou produtos, nem sempre é imediata. Há que identificar os potenciais clientes, com ações de prospeção de mercado, o que, muitas vezes, acontecem ainda antes da abertura do mercado. Posteriormente, é necessário promover o produto junto dos clientes e consumidores, a fim de proporcionar condições ideais de venda. Alguns dos mercados abertos têm processos muito burocráticos, que implicam a vinda de técnicos para efetuar a expedição dos produtos, o que praticamente inviabiliza a exportação. Foi o que aconteceu a campanha passada com o México, para onde apenas foi possível enviar muito poucos contentores. Felizmente esta situação está ultrapassada e nesta campanha esperamos apostar mais neste mercado. Fala-se muito na abertura de mercados para as frutas, mas é raro o mercado que abre para mais de uma ou duas frutas. No caso do México, foi para peras e maçãs. 
 
VE – Os produtores portugueses têm escala para responder aos volumes de encomendas?
GA - As empresas estão a efetuar esforços para aproveitar estas oportunidades, mas não podemos ter a ilusão de efetuar grandes quantidades nos dois ou três primeiros anos. Para as empresas portuguesas a abertura de mercados é crucial para terem mais um ou dois clientes por país que serão muito importantes para melhorar a remuneração à produção. Todos sabemos que Portugal é um país de pequena dimensão e a oferta de produto nunca poderá ser comparada, salvo raras exceções, com países como Espanha, França ou Itália. 
A estratégia comercial nos novos mercados, dependendo também do tamanho e poder de compra do mesmo, terá que ser muito bem definida, a fim de conseguirmos garantir um serviço de excelência em termos de qualidade e quantidade de produto. 
 
VE – O que é que falta, em sua opinião?
GA - A Portugal Fresh acredita que deve haver uma estratégia para o setor na abertura de novos mercados para os próximos anos. Na última Fruit Logistica [Berlim, fevereiro 2018] saiu um estudo que compara dados reais de compras mundiais de frutas e legumes em 2015 e estimativa de compras para 2030.
 
VE – E quais são os principais resultados desse estudo?
GA - As compras de frutas e legumes no mundo vão passar de 2,1 biliões de euros, em 2015, para 4,8 biliões de euros em 2030. Em 2015, a Ásia e a Oceânia foram responsáveis por 46% dessas compras. Em 2030, a Ásia e a Oceânia vão representar 56% das compras mundiais do setor. Se olharmos para a demografia mundial, verificamos que a China, Índia, Estados Unidos da América, Indonésia e Brasil são os países com maior população. Deste grupo de países apenas temos acesso ao Brasil. A Portugal Fresh acredita que não podemos ficar privados de mais de metade do mercado global. Há que tentar acordos com a China, Índia e Indonésia, não esquecendo os Estados Unidos. Devem ser negociados grupos de produtos que sejam relevantes para as exportações portuguesas e não apenas um ou dois produtos, como na maioria dos países tem acontecido.

“O desafio de ter pessoas disponíveis para trabalhar 
na agricultura continua”


Em entrevista à “Vida Económica”, Gonçalo Andrade é muito claro: “o desafio de ter pessoas disponíveis para trabalhar na agricultura continua”. É que, além da “crescente competição entre as empresas produtoras na Europa pelos trabalhadores de países terceiros”, “a carga fiscal praticada em Portugal e a morosidade dos processos de recrutamento não ajuda as empresas nacionais”. 
 
Vida Económica - Na feira Fruit Attraction de Madrid do ano passado referiu à “Vida Económica” que as verdadeiras consequências para o setor das frutas resultantes da seca extrema por que Portugal passou em 2017 iriam verificar-se em 2018. Estão a sentir isso? Há quebras na produção?
Gonçalo Andrade - Houve muita preocupação e situações complicadas no nosso setor, embora em menor escala do que em outros setores agrícolas, que afetaram produções e inviabilizaram plantações nas alturas mais adequadas para conseguirmos boas janelas de comercialização. 
No primeiro semestre, quase todas as culturas registaram um atraso considerável no início da produção. As culturas anuais com plantações muito atrasadas devido à seca e outras devido à elevada pluviosidade ocorrida a seguir à seca e as culturas permanentes devido aos meses amenos e encobertos no final do Inverno e início da Primavera. Contrariamente ao habitual, o centro da Europa registou neste período temperaturas mais elevadas e mais horas de sol, o que antecipou as produções dessas geografias. O valor da produção e exportação foi fortemente afetado, porque as produções foram quase coincidentes entre Portugal e o Centro da Europa.
 
VE - O problema da seca mantém-se? O Governo lançou várias obras para a beneficiação e/ou construção de regadios. Esses benefícios já estão a chegar aos produtores? 
GA - No setor das frutas, legumes e flores, dentro dos associados da Portugal Fresh, não estamos com problemas graves a este nível, neste momento. Penso que ainda é cedo para avaliarmos os benefícios e custos associados. 
 
VE - Apesar desses projetos de regadio, isso é suficiente? Estamos salvaguardados em caso de novos fenómenos de seca extrema ou haveria que tomar medidas mais estruturantes?
GA - Todos os projetos que venham aumentar o regadio são importantes para o desenvolvimento do nosso setor. Será importante reforçar alguns projetos existentes e lançar novos. O setor tem registado um crescimento significativo a nível das exportações e devemos investir no que garante retorno para a economia nacional e permite criar postos de trabalho. A região do Oeste, que muito contribui para as exportações, muito beneficiaria com o projeto “Tejo” e acreditamos que este projeto, a par de outros, poderá ser uma alavanca para o sector. 
 
VE - Quer na Fruit Attraction, há um ano, quer na Fruit Logistica, em Berlim, em fevereiro último, falou-me do problema da escassez da mão de obra e dos problemas burocráticos para contratar imigrantes para a agricultura. O problema foi resolvido ou persiste?
GA - O desafio de ter pessoas disponíveis para trabalhar na agricultura continua. As necessidades de mão de obra no setor primário aumentaram nos últimos anos devido ao crescimento de áreas plantadas de culturas sem colheita mecânica. Tem havido uma crescente competição entre as empresas produtoras na Europa pelos trabalhadores de países terceiros, o que tem originado uma diminuição dos interessados em vir para Portugal. Por outro lado, a carga fiscal praticada em Portugal e a morosidade dos processos de recrutamento não ajuda as empresas nacionais. 

 


TERESA SILVEIRA, 12/10/2018
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